Alimentação saudável na Primeira Infância: um legado para toda a vida

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criança comendo uma ameixa

Alimentar-se de maneira saudável é um comportamento que se inicia antes mesmo do nascimento, exigindo cuidados especiais da mãe para que sua dieta seja adequada ao desenvolvimento do bebê durante a gestação. A importância desse processo é cada vez mais destacada pela ciência, que vem realizando pesquisas para entender os impactos de uma alimentação adequada tanto para o desenvolvimento físico e emocional dos seres humanos quanto para a sociedade como um todo.

As evidências mostram que ensinar bons hábitos alimentares desde a Primeira Infância é fundamental para uma vida adulta com mais saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), após o nascimento, a alimentação única e adequada para a criança deve ser o leite materno, fornecido a partir do aleitamento exclusivo até 6 meses de vida.

A recomendação da organização, que é reiterada por inúmeros estudos, reforça que o leite materno protege contra infecções e garante todos os nutrientes necessários nesses primeiros meses de vida. Nem água, sucos ou fórmulas de leite industrializadas são capazes de suprir os nutrientes fornecidos pelo leite materno.

Após essa idade, é necessário inserir a alimentação complementar, que deve ser acompanhada pela amamentação até os 12 meses ou mais, de acordo com as condições e disponibilidade da família. As refeições devem acontecer a cada três horas, afim de garantir que a criança desenvolva bons hábitos nutricionais. Também é imprescindível evitar todos os tipos de alimentos açucarados e industrializados, como refrigerantes, sucos prontos ou farinhas para engrossar o leite.

De acordo com grande parte das pesquisas, os primeiros alimentos a serem oferecidos ao bebê são as frutas e vegetais frescos, pois eles são excelentes fontes de vitaminas, minerais, fibras e compostos que contribuem para a prevenção de doenças tanto na infância quanto na vida adulta.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), os sucos de fruta devem ser evitados e restritos aos elaborados com a fruta in natura (fresca). Já a Academia Americana de Pediatria contraindica a oferta de suco no primeiro ano de vida, restringindo a 120 a 180 ml/dia entre 1 e 6 anos de idade. Isso porque sucos de fruta nem sempre proporcionam o mesmo benefício da fruta devido às perdas de fibras e alguns nutrientes no processo de preparo, além de conferir menor saciedade.

Para que seja criado o hábito de uma alimentação saudável, especialistas recomendam que pratos oferecidos aos bebês e crianças pequenas sejam sempre coloridos: as refeições coloridas apresentam um visual bonito que estimula o apetite e garante o consumo de todos os nutrientes necessários. Devem ser oferecidos alimentos de todos os grupos alimentares, como feijões, cereais, raízes e tubérculos, legumes, verduras, frutas, leite e carnes, e variar os alimentos dentro de cada grupo.

Além disso, é interessante envolver a criança na escolha, compra e preparação dos alimentos, estimulando a criatividade, o contato com novos alimentos e a valorização do ato de cozinhar. Pesquisas têm demonstrado que crianças que costumam almoçar ou jantar à mesa com seus pais tendem a ter uma alimentação mais saudável, além de apresentar menos problemas de comportamento e ter melhores resultados escolares.

Os especialistas também afirmam que a criança deve aprender desde cedo a comer mastigando muito bem os alimentos. O exercício desenvolvido na mastigação envolve estruturas como dentes, língua, músculos, ossos e articulações que trabalham de maneira conjunta, possibilitando o desenvolvimento harmonioso das estruturas da face. Quando isso não ocorre e a textura dos alimentos não exige esforço mastigatório suficiente, como é o caso de papas e sopas, pode-se comprometer o crescimento ósseo da face ou gerar um crescimento assimétrico, responsável por problemas ortodônticos futuro.

Uma forma de ensinar a criança desde cedo a mastigar muito bem os alimentos é por meio de um método conhecido como BLW (baby led weaning ou introdução alimentar guiada pelo bebê). Neste método, em vez de papinhas, o bebê é apresentado desde o início a pedaços inteiros de alimentos cozidos para que aprenda a manuseá-los e leva-los à boca por conta própria.

Restrições alimentares

Distúrbios alimentares durante a Primeira Infância são um problema comum em pediatria. Muitas terminologias têm sido criadas para descrever essa condição, dificultando a implementação de terapias e confundindo um problema que é comum. Alimentação exigente, dietas restritas, aversão sensorial, alimentação seletiva (picky eating, em inglês), esquiva emocional de alimentos, síndrome de recusa generalizada, defensividade tátil, disfagia funcional, neofobia e anorexia da criança são algumas das terminologias citadas em estudos nacionais e internacionais.

A alimentação seletiva é um dos distúrbios alimentares mais comuns na Primeira Infância, que faz com que a criança só coma determinados tipos de alimentos. Existem diferentes teorias acerca do surgimento da alimentação seletiva. Pesquisas sugerem que entre os fatores que afetam esse hábito estão: pressão para comer, temperamento e personalidade, sensibilidade sensorial, genética, estilos alimentares parentais e até mesmo fatores específicos como a ausência do aleitamento materno nos seis primeiros meses, falta de variedade de alimentos, ou introdução tardia a diferentes texturas. Uma estratégia eficaz para garantir que a criança não desenvolva o distúrbio é oferecer entre 12 e 15 vezes o mesmo alimento, com preparos diferentes, até certificar-se de que a criança realmente não gosta daquele ingrediente.

Escolas como espaço de educação alimentar

Especialistas defendem que as escolas lidem com o momento da alimentação como uma extensão da proposta pedagógica. O tema deve estar presente transversalmente no currículo, sendo refletido no momento da alimentação, uma vez que as aprendizagens vão incidir diretamente na escolha dos alunos.

Entretanto, diversos estudos têm mostrado que a qualidade da alimentação escolar no Brasil deixa a desejar. Um deles identificou que as creches brasileiras oferecem pouca ingestão de frutas, legumes, verduras e de alimentos ricos em ferro e o consumo excessivo de alimentos com muita proteína e alto teor de sódio. Outro estudo revelou que menos da metade das crianças acompanhadas haviam consumido a quantidade ideal de vegetais diária, enquanto 99,6% haviam consumido os alimentos pertencentes ao grupo dos salgadinhos, doces e açúcares.

Efeitos da má alimentação

A falta de alimentos saudáveis adequados durante a Primeira Infância pode prejudicar a capacidade de concentração, o bom desempenho escolar e está ligada a problemas comportamentais e emocionais na pré-adolescência e adolescência. A má alimentação pode também deixar as crianças mais propensas a doenças, faz a recuperação de um quadro clínico ser mais lenta e aumenta o número de visitas ao hospital. A desnutrição infantil precoce também é associada a condições como diabetes e doenças cardiovasculares a longo prazo.

insegurança alimentar pode afetar as crianças em qualquer comunidade, não apenas aquelas em situação de vulnerabilidade e baixas condições econômicas. Nos Estados Unidos, estima-se que 21% das crianças vivam em ambientes familiares sem acesso consistente à alimentação adequada. Para reverter esse cenário, em 2015 a Academia Americana de Pediatria publicou uma série de recomendações que orientam pediatras na triagem e identificação de crianças em risco de insegurança alimentar e o acesso das famílias aos recursos necessários para promover a boa alimentação.

Na América Latina, a má nutrição é uma das principais causas de doenças e mortalidade. Mortes prematuras atribuídas a doenças crônicas não transmissíveis afetam principalmente países de baixa e média renda, e os principais fatores de risco evitáveis são o tabaco, o uso nocivo de álcool, inatividade física e dieta com baixa qualidade. No Brasil, dados de 2014 revelam uma prevalência de 50% de pessoas com sobrepeso, 17.5% de obesidade, 6.9% de diabetes e 24,1% de hipertensão. Estes números são, em grande parte, provocados pelo enfraquecimento dos padrões alimentares tradicionais, baseados em alimentos in natura ou minimamente processados, e pelo consumo exacerbado de alimentos ultraprocessados.

Uma análise da dieta de 38 mil bebês atendidos em unidades básicas de saúde brasileiras revelou que 56% deles consomem alimentos ultraprocessados, enquanto apenas 14% haviam ingerido alimentos ricos em ferro.  Ultraprocessados são alimentos que passam por técnicas e processamentos com alta quantidade de sal, açúcar, gorduras, realçadores de sabor e texturizantes. Esses alimentos não devem ser oferecidos às crianças, sob o risco de perpetuar e agravar problemas de saúde identificados atualmente na população adulta, como pressão alta, diabetes e obesidade mórbida.

Guias orientam a formação de hábitos alimentares saudáveis

As publicações a seguir auxiliam pais, cuidadores e profissionais de saúde na condução de uma introdução alimentar adequada e o estabelecimento de hábitos saudáveis tanto na infância quando na vida adulta.

 

Quer saber mais sobre alimentação saudável na Primeira Infância? Clique no botão laranja abaixo e acesse tudo o que já publicamos sobre o tema.

 

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